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De São Paulo a Luanda: Uma Tenda de oportunidades 03/03/2015 às 19h

 


Por Wagner Hilário

 

O executivo Fernando Bara, da rede de atacarejo Tenda, conta-nos nesta Exclusiva
um pouco de sua trajetória profissional e da história da empresa, uma rede marcada
pela forte expansão no mercado brasileiro nos últimos 15 anos e pelo pioneirismo, ao
lançar-se ao mercado internacional, abrindo lojas em Angola, onde cresce mais de
50% ao ano


A mineirice de Fernando Bara, diretor-geral da rede de atacarejo paulista, o Tenda, se nota já nas primeiras palavras da nossa prosa, que se estenderá por mais de uma hora. Estamos na sala de reuniões do escritório da empresa, na sede e centro de distribuição (CD) da rede, localizada em Guarulhos. Bem-humorado e de riso fácil, Bara fala de sua história profissional, da economia nacional, mas principalmente do Tenda e de sua pioneira atuação no mercado angolano, onde a empresa brasileira e ele têm “aprendido muito”.


Engenheiro metalúrgico, formado pela Escola de Minas e Metalurgia de Ouro Preto, ele se diverte com o fato de ter se tornado um executivo do varejo nacional, embora tenha uma boa explicação para isso. “Engenheiro é assim: ou é muito técnico e segue pela área específica em que se formou ou termina em setores como administração e produção”, afirma. Mas antes de se tornar um administrador do varejo, o engenheiro se enfronhou numa área que ele adora e tem tudo a ver com o negócio atacadista...


“Logística é um quebra-cabeças de ‘ene’ variáveis que você precisa montar para saber quais são as melhores medidas e ações para resolver um problema.
Isso é o que mais me encanta na área, o que movimenta meu coração. A logística me obriga a conhecer as inúmeras variáveis em que se amarra o processo. Se você analisar friamente, a logística é parte integrante de qualquer outra área e isso naturalmente me abriu um leque de possibilidade profissional fantástico. Logística é algo bem mais humano do que se imagina, porque sua palavra-chave é integração.”


De acordo com ele, a logística apareceu em sua vida profissional ainda muito cedo.
“Nos meus primeiros anos de formação trabalhei com metalurgia, na Alcan [companhia metalúrgica que hoje se chama Novelis]. Também atuei no ramo de celulose, em Jari, no Pará, e na Mineração Rio do Norte (MRN). Mas mesmo nesse princípio, as atividades que realizei estavam ligadas à logística [Na MRN, ele foi superintendente da área comercial e de Logística].”


Essas experiências na atividade o levariam à Cia. União de Açúcar e Café Copersucar, onde também trabalharia com logística, para depois assumir uma planta de refino de açúcar na cidade de Limeira (SP), trabalho que desempenharia por 12 anos. “Cuidava de 3 mil funcionários e de atividades diversas, não apenas de logística.” Tanto conhecimento administrativo, comercial e de logística culminaram na sua ida para um ramo de atividade que é essencialmente gestão, vendas e, de novo, logística: o atacado distribuidor. “Em 1999, vim para o Vila Nova [bandeira da empresa de atacado distribuidor que daria origem à rede Tenda em 2001].” Na época, a distribuição respondia por 90% do negócio da empresa. A operação de cash & carry, ainda incipiente, representava 10%. “Cheguei para dirigir um atacado de distribuição, mas com a reestruturação patrimonial da empresa foi criado o Tenda e a operação atacarejista passou a ser prioridade.” 

Hoje, a relação de importância por atividade dentro do grupo é praticamente inversa: um pouco mais de 90% da receita vem do cash & carry. Apesar dessa recente mudança no modelo comercial e no surgimento da bandeira Tenda, a empresa tem quase 87 anos de história; nasceu em 1928, na cidade Monte Azul Paulista (SP), como Vila Nova mesmo. Alguns anos depois de fundada, com o crescimento, a empresa foi para Poços de Caldas, já atuando como distribuidora, e, em 1994, abriu o centro de distribuição (CD) em Guarulhos.

A empresa da família Severini está em sua quarta geração de gestores e hoje é uma das maiores do segmento atacarejista brasileiro. “O Tenda tem 23 lojas atualmente. Em 2001, tinha duas, ambas herdadas do Vila Nova, uma na Vila Maria [zona norte da capital paulista] e outra em Campinas. Por meio da bandeira Vila Nova, ainda atuamos como atacado distribuidor no interior de São Paulo e em Minas Gerais.”


Mas o mérito do Tenda, que faturou R$ 2,2 bilhões em 2014, quando cresceu 16%, não se resume à rápida ascensão em território nacional. A empresa é uma das poucas do varejo alimentar brasileiro — se não for a única —, com atuação no mercado internacional. Desde 2009, ela aportou em terras angolanas. Nesta Exclusiva, Bara nos conta como tem sido o desenvolvimento da rede no mercado brasileiro e, principalmente, em Angola, um país que, apesar de falar português, é bem diferente do nosso.


É claro que a questão de Angola chama a atenção, mas o Brasil é o principal mercado de vocês. Então, vamos começar por ele. Hoje, são 23 lojas em São Paulo, a ideia agora é ir para outros estados?


Dentro do nosso planejamento estratégico, até 2017, a expansão no Brasil se restringirá a São Paulo.  Vamos focar, nesse período, o interior [em novembro de 2014, a rede abriu sua 23a unidade em Piracicaba]. Isso porque a região metropolitana se torna cada vez mais inviável: falta espaço e o preço do terreno é muito alto. Estamos com cinco lojas na Grande São Paulo: são duas na capital, uma em Diadema, uma em Carapicuíba e uma em Guarulhos. No interior, são 18 lojas. O eixo do Vale do Paraíba [em que São José dos Campos é a principal cidade] nós praticamente já ‘fechamos’. Há também o eixo da região de Campinas, onde temos boa presença. Mas ainda há outros eixos para preencher. Até 2017 queremos chegar a 45 lojas.


São praticamente oito lojas ao ano. É muita coisa, não? Como farão isso? Farão como o Carrefour: vão lançar um modelo de loja mais compacto?


Para ser preciso, pretendemos abrir seis unidades em 2015, mais oito em 2016 e outras oito em 2017. Com relação a novos formatos, nós também nos preocupamos em ingressar num modelo atacarejista menor, que possa ser instalado em centros urbanos, até porque o interior também tem cidades bem urbanizadas e bastante populosas. Na realidade, nós já temos lojas que se aproximam dos 3 mil m2 de área de vendas [tamanho médio do Supeco, nova bandeira do Carrefour]. São os casos das lojas de Guaratinguetá, Campinas e Santo Amaro [já na capital paulista]. Mas não é nosso padrão, embora seja importante diversificar, até por demanda.


E em Angola, como fica essa questão do modelo, do formato mais apropriado? É muito diferente? 


Em termos de estrutura operacional e layoutização, segue uma linha muito parecida com a que temos aqui. Na verdade, levamos para lá nosso modelo tradicional e adaptamos o mix. Lá como cá, é um modelo calcado na austeridade permanente, porque para você fazer esse negócio girar, é preciso ser extremamente produtivo e eficiente. Qualquer centavo faz diferença na última linha do balanço.


Você falou sobre diferença no mix...


Por exemplo, carne fresca nós não vendemos lá, só congelada, porque não tem produção local. Aliás, quando chegamos lá não havia produção interna de quase nada. As coisas estão mudando. Mas ainda há muitos itens perecíveis que precisam ser importados. Esses nós temos de trazer congelados. Até bem pouco tempo, por exemplo, nós importávamos ovo, mas agora, 100% das nossas vendas na categoria vêm de produção local. Nossa alimentação básica é arroz e feijão, lá é um tipo de fubá. Outro exemplo, molho de tomate: a embalagem conta muito; quanto mais vermelha for — mas tem de ser vermelho mesmo, nada de grená — mais eles preferem.


Foi difícil entender e atender essas peculiaridades do angolano?


Isso só se aprende com o tempo e estando lá, não tem jeito. Não adianta ver de longe e achar que sabe. Os erros e acertos fazem parte do aprendizado, cabe a nós sermos rápidos em aprender e nos adaptar.


*Wagner Hilário é repórter da revista SuperHiper, publicação da ABRAS



 

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