São Paulo - Os preços de alimentos devem continuar ajudando a manter os índices de preços mais baixos até o final deste ano, afirmaram especialistas entrevistados pelo DCI.
"A situação de 2017 deve seguir favorável, com condições climáticas boas e resultados melhores das safras [na comparação com 2016]", disse Paulo André Camuri, assessor técnico do núcleo econômico da Confederação de Agricultura e Pecuária (CNA).
Ele citou o caso do milho, cuja produção foi afetada pelas secas no ano passado. "Para 2017, é esperada uma colheita recorde, que também pode deixar o leite mais barato". A safra do grão, que é usado como ração para bovinos, deve alcançar os 90 milhões de toneladas neste ano.
Outros produtos agrícolas, como o arroz, o feijão e a farinha de trigo, também marcam baixas nos preços, hoje, depois de registrar aumentos no ano passado, afirmou André Camuri.
Por outro lado, o especialista chamou atenção para o açúcar e a carne. O primeiro pode ficar mais caro pela influência da cotação internacional, enquanto que o segundo deve recuperar parte das perdas causadas pela Operação Carne Fraca. "Ainda assim, eles não devem trazer impacto importante para a inflação", entende.
O Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de abril, divulgado na última quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou que o avanço acumulado pelo grupo alimentação e bebidas foi de 0,45% nos quatro primeiros meses deste ano, bem abaixo das variações mensais registradas no primeiro semestre de 2016. Em julho do ano passado, por exemplo, a alta chegou a 1,45%, segundo dados do IBGE.
Tempo bom
Mesmo os aumentos sazonais dos preços devem ter intensidade menor neste ano, disse André Braz, coordenador do IPC do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE), da Fundação Getulio Vargas (FGV).
"Não temos previsão de muita chuva para 2017, mas ela deve ser bem distribuída pelo País, o que deve impedir um impacto mais forte de variações sazonais", explicou.
Ele disse ainda que os efeitos de uma eventual piora climática, no segundo semestre, teriam impacto maior sobre os índices de 2018. Isso porque grande parte das safras já estará consolidada em julho.
Deflações elevadas, entretanto, não devem voltar a acontecer, afirmou Braz. "As quedas [nos preços] que vimos até agora já compensaram a inflação alta dos primeiros meses de 2016. Daqui para frente, deve haver certa estabilidade", indicou o pesquisador.
Abaixo da meta
Sobre o quadro geral para a inflação de 2017, os entrevistados concordaram que os índices devem ficar abaixo dos 4,5%, centro da meta do governo, ainda que alguns componentes possam acelerar durante os próximos meses.
Os preços administrados, como energia elétrica, água e ônibus urbano, podem subir até o final do ano, exemplificou Braz. Esses itens, porém, têm menor peso para os cálculos do que o grupo alimentação e bebidas, que representa cerca de um quarto dos índices divulgados pelo IBGE.
O IPCA-15, prévia da inflação oficial, subiu 0,21% em abril, menor resultado para o mês desde 2006, quando ficou em 0,17%. No ano, o aumento acumulado chegou a 1,22%, bem abaixo dos 3,32% vistos entre janeiro e abril de 2016. Já em 12 meses, a alta foi de 4,41%, menor que o avanço de 4,73% atingido no ano encerrado no mês passado.
O grupo alimentação e bebidas teve crescimento de 0,31% em abril, o maior crescimento no ano. Já na comparação com igual mês do ano passado, quando a alta foi de 1,35%, houve retração significativa dos alimentos.
Entre os principais produtos, destaque para o encarecimento do tomate (30,79%), da batata-inglesa (11,63%), dos ovos (5,50%) e do leite longa vida (1,49%) neste mês.
No sentido contrário, recuaram os preços de farinha de trigo (-3,61%), feijão-carioca (-2,5%), arroz (-1,89%) e frango inteiro (-1,04%).
Entre os outros grupos analisados, os avanços mais importantes vieram de saúde e cuidados pessoais (0,91%), vestuário (0,44) e habitação (0,39). Por outro lado, foram registradas quedas nos preços de transportes (-0,44) e artigos de residência (-0,43%).
Para esse cálculo do IPCA-15 os preços foram coletados no período de 15 de março a 12 de abril de 2017 (referência) e comparados com os vigentes de 14 de fevereiro a 14 de março do mesmo ano (base).
No caso do índice geral do mês, o último divulgado foi o de março, o qual variou 0,25% ante fevereiro, ficando abaixo dos 0,33% do segundo mês deste ano. Em março de 2016, o IPCA foi 0,43%.
Com este resultado, o primeiro trimestre deste ano acumulou 0,96%, percentual bem inferior aos 2,62% de igual período de 2016.
Renato Ghelfi
Fonte: DCI - São Paulo