Mas economistas, como o coordenador da Fipe, acham que ainda é possível cumprir a meta da inflação, mesmo com pressão dos serviços
Os preços dos serviços são a principal ameaça para a inflação em 2012, concordam os economistas. Mas eles divergem sobre o tamanho do problema. Na semana passada, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (BC) cortou a taxa básica de juros em 0,75 ponto porcentual para reativar a economia. A decisão suscitou o debate sobre o impacto do corte dos juros nos preços dos serviços, que já estão em níveis elevados.
"Os serviços intensivos em trabalho vão continuar subindo acima do IPC (Índice de Preços ao Consumidor) geral. Mas não acho que os serviços vão comprometer a inflação", diz o coordenador do IPC da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Rafael Costa Lima. Segundo ele, pelos indicadores conhecidos de janeiro e fevereiro, há muita chance de se cumprir a meta de inflação neste ano, mesmo com a pressão dos serviços.
Na avaliação do economista, a desaceleração do ritmo de atividade, captado pelo Produto Interno Bruto (PIB) do último trimestre de 2011, que cresceu apenas 0,3% em relação ao trimestre anterior, descontadas influências sazonais, deve ter impacto na renda do trabalhador, na demanda e nos preços dos serviços nos próximos meses. "Antes de reduzir as compras da feira, a mulher corta as idas ao cabeleireiro", exemplifica Lima.
Fábio Romão, economista da LCA Consultores, também acredita que a desaceleração da economia no último trimestre de 2011 vai aparecer nos preços dos serviços ao longo do ano. "O movimento é bastante gradual e irregular, mas vai ocorrer", prevê.
Romão explica que, assim como os indicadores de emprego, os preços dos serviços são os últimos a refletirem a desaceleração da economia. "O emprego e os serviços têm uma defasagem no ciclo econômico", ressalta.
Apesar de traçar esse cenário, o economista da LCA pondera que a variação acumulada nos preços dos serviços está hoje num nível elevado, porém em desaceleração. Em 12 meses até fevereiro, os preços dos serviços, de acordo com a última classificação do BC feita a partir do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o indicador de metas de inflação, subiram 9,3%. Em janeiro, a alta acumulada em 12 meses tinha sido de 9,9%.
"O pior momento de pressão dos serviços já passou", diz Romão. O pico de variação do preço dos serviços, acumulada em 12 meses, ocorreu em novembro do ano passado, quando a alta chegou a 10%. Para este ano, ele prevê elevação de 8,2% para um IPCA geral de 4,8%.
Divergência. Já o economista-chefe da MB associados, Sergio Vale, projeta inflação de serviços de 8,5% para este ano, para um IPCA de 5,5%. E, para 2013, ele acredita que a inflação dos serviços deve passar de 10%.
"Quanto mais tempo o BC deixar os preços dos serviços crescendo nesse ritmo, mais difícil será reduzir o patamar da taxa." Vale ressalta que, como o governo está confortável em ter uma inflação próxima de 6,5% todo ano, ele não percebe o risco de manter a inflação dos serviços tão elevada.
Para o coordenador de Análises Econômicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Salomão Quadros, é prematuro afirmar que há alguma tendência de desaceleração da inflação de serviços livres. No momento, diz ele, os serviços livres, que excluem os administrados, aparentemente continuam em aceleração.
"Para os próximos meses, imagino ainda alguma alta, especialmente naqueles serviços sensíveis ao salário mínimo." O salário mínimo, observa, é ao mesmo tempo custo, no caso das empregadas domésticas, por exemplo, e demanda, quando se considera a alimentação fora de casa. "Mas acho que deve haver estabilização ou leve desaceleração mais adiante", prevê Quadros.
Veículo: O Estado de S.Paulo