As medidas antidumping adotadas pelo governo brasileiro para defender a indústria nacional da invasão de produtos chineses não têm sido suficientes para impedir a concorrência desleal e o fechamento de empresas. Hoje, a grande fonte de preocupação de alguns setores, como o de escovas para cabelo, é Taiwan. Dados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostram que, nos últimos quatro anos, houve redução significativa (63%) da participação dos produtos vindos da China. Em contrapartida, no período, chama a atenção o aumento de 41% da participação de Taiwan nesse mercado.
"Seremos obrigados a renovar o processo antidumping contra a China, que termina no final do ano, e a abrir um novo processo contra Taiwan e Coreia do Sul", informa o proprietário da Escovas Fidalga e membro fundador da Comissão de Defesa da Indústria Brasileira (CDIB), Manolo Canosa. Para o dirigente, não é preciso fazer contas mirabolantes para perceber que a "fabricação" que vinha da China foi deslocada para outros países, como Taiwan, em típica operação de triangulação, em que o país onde de fato é fabricada a mercadoria é alterado com o intuito de burlar o pagamento de sobretaxas. No caso das escovas, o governo federal impôs a cobrança de uma taxa antidumping.
Recentemente, o governo concluiu uma investigação sobre um suposto caso de triangulação envolvendo uma empresa chinesa. Mas alegou que a companhia possuia uma planta em Taiwan, ou seja, não foi constatada a prática de dumping nas aquisições do produto. "Sabemos que a empresa foi acusada de práticas ilegais na Europa", lembra.
Em 2009, entraram no País mais de 500 toneladas de escovas provenientes de Taiwan. No mesmo ano, as importações da China totalizaram 169 toneladas.
Agonia – De acordo dados da CDIB, há dez anos, existiam 40 fabricantes nacionais de escovas. Sobraram duas. O número de funcionários foi reduzido de 6 mil para 400. E a participação no mercado passou de 80% para 20%. Na lista de setores "agonizantes" e vítimas da invasão de produtos importados, está o de ímãs de ferrite, um componente de autofalantes. Há dez anos, eram três fabricantes nacionais. Sobrou apenas a Supergauss. "Hoje, concorro com cerca de 50 empresas chinesas", informa o seu proprietário, Roberto Barth, que integra a CDIB.
Para ele, se antes faltavam regras para coibir práticas ilegais de comércio, agora falta agilidade do governo em detectar as triangulações. "Está na hora de o governo superar a agilidade que importadores brasileiros e empresas chinesas têm para buscar brechas ilegais", defende.
Segundo a CDIB, o segmento de óculos e armações também sofre com a enxurrada de importados. E com um agravante: cerca de 80% dos itens que entram no País são contrabandeados. Na última década, o número de empresas do setor foi reduzido de 300 para 15. "E há setores que não se manifestam porque simplesmente deixaram de existir", lamenta Barth. É o caso do segmento de guarda-chuvas e pedivelas de bicicletas.
Veículo: Diário do Comércio - SP