Dívidas, incertezas na economia e débitos de começo de ano, como impostos, geraram receio do consumidor em buscar dinheiro na praça. Reflexo disso é que a demanda por crédito retraiu 8,7% em fevereiro frente o mês anterior. Foi a segunda queda mensal seguida (veja quadro ao lado). Comparada a fevereiro de 2011, a redução foi ainda mais acentuada e despencou 13,3%, acumulando recuo de 9,7% no primeiro bimestre de 2012 sobre o mesmo período de 2011, mostrou pesquisa da empresa Serasa Experian.
O gerente de indicadores de mercado da Serasa, Luiz Rabi, destacou que a forte queda do interesse por crédito é resultado do cenário econômico atual. A série de medidas que encareceram os empréstimos entre o fim de 2010 e primeiro semestre de 2011, deflagrada pelo BC (Banco Central) com vistas a derreter os índices inflacionários, acabou amargando as finanças pessoais. Boa parte dos clientes que contraíram financiamentos ou já carregavam dívidas anteriores ao ano passado, explicou Rabi, contribuiu para engordar a inadimplência.
Índices de calotes normais, segundo o executivo, flutuam em 10,5% ao ano. Entre janeiro e dezembro, porém, esse número atingiu 21,5%, o dobro do considerado padrão histórico. "Com o avanço do crédito em 2010 e mesmo em 2011, o que se viu foi aumento forte da inadimplência, que só mudou a partir do fim do ano, quando as pessoas começaram a colocar as finanças em ordem." Para o gerente, o movimento de ajustes no orçamento ainda ocorre.
Débitos com pagamento de impostos, dívidas com as férias e despesas com Educação já são dissabores que tiram o apetite do consumidor por crédito. Com dívidas contraídas antes disso, o que se viu foi maior cautela do brasileiro em gastar.
No Grande ABC também houve queda no varejo. Foi o que considerou o presidente da Acisbec (Associação Comercial e Industrial de São Bernardo), Valter Moura, destacando que o recuo, porém, não chegou à magnitude verificada na média nacional. "Basta ver o PIB, pífio, de 2,7% no ano passado, o que já caracteriza o ritmo da economia", justifica.
Moura enfatizou que o comerciante deve adequar seu fluxo de caixa conforme a demanda atual dos consumidores como forma de prevenir impactos negativos, como estoques e mesmo dívidas.
Apesar de o governo lançar política de estímulos à economia - o BC reduz desde agosto a taxa básica de juros, hoje em 9,75% ao ano - Rabi pondera que há demora em perceber resultados positivos porque, ao contrário de 2009 (quando a postura do governo foi a mesma, como forma de blindar o País da crise internacional de 2008), há inadimplência elevada e as pessoas seguem poupando a fim de liquidar essas contas pendentes.
Veículo: Diário do Grande ABC