A folga na inflação do primeiro trimestre deste ano, que alcançou 1,22%, marca 0,28 ponto percentual abaixo do 1,50% esperado pelo Banco Central, conforme cálculos da MCM com base no Relatório de Inflação de março, permitiu que o governo mudasse o patamar do câmbio a fim de proteger a indústria nacional e beneficiar os exportadores.
Segundo o economista e sócio da MCM, Antônio Madeira, a subida da cotação do dólar ante o real de R$ 1,76 em 6 de março para o atual nível ao redor de R$ 1,90 equivale a uma depreciação de 7,95% da moeda brasileira. Como o repasse da variação do câmbio para o IPCA é estimado por ele em 4%, significa que o novo piso do dólar ante o real representa uma alta de 0,32 ponto percentual naquele índice de preços. "O IPCA mais comportado, que inclusive subiu 0,21% em março, permitiu uma mudança de patamar do câmbio. O governo seguramente não quer a cotação abaixo de R$ 1,80", disse.
De acordo com Madeira, a desinflação mundial está ajudando o governo na puxada do câmbio como instrumento de auxílio para as indústrias exportadoras. Para se ter uma ideia da queda global nos preços, o índice CRB de commodities deve apresentar uma queda entre 10% e 20% neste ano ante 2011, em termos nominais. "A Europa está em recessão, os EUA não apresentam uma retomada tão vigorosa como aparentava há algumas semanas e até a China começa a perder um pouco do seu ritmo elevado de expansão", destacou, lembrando que o governo do país asiático recentemente disse que o crescimento deverá atingir 7,5% em 2012, taxa menor do que a alta de 9,5% apurada no ano passado.
A política do governo para reduzir a apreciação do câmbio conta nos últimos dois meses com vigorosa atuação do Banco Central, o que sinaliza uma grande sintonia entre Fazenda e a autoridade monetária. Segundo Madeira, do dia 6 de março até hoje o BC fez 19 leilões de compra de dólares, o que colaborou de forma expressiva para que as reservas internacionais subissem US$ 15,39 bilhões nos últimos 30 dias, pois atingiram US$ 371,107 bilhões no dia 19.
Devido ao quadro externo negativo, o Brasil não deve registrar um choque de commodities, o que vai colaborar para que a inflação feche neste ano com alta de 5,10%, segundo a MCM. O resultado está acima da meta de 4,5% e da projeção de 4,4% do BC para a inflação neste ano, mas é 1,4 ponto percentual inferior à alta de 6,5% registrada no ano passado.
Segundo o Banco Central, a valorização do real ante o dólar em fevereiro, último dado disponível, alcançou 34,15% ante junho de 1994, de acordo com a série temporal 11.753. Além desse fato, as principais moedas do mundo, entre elas a dos Estados Unidos, zona do euro, Inglaterra e Japão, vêm registrando desvalorizações competitivas nos últimos dois anos, especialmente através de políticas de afrouxamento quantitativo.
Veículo: Diário do Comércio- MG