Em vez de exportar maior parte da produção, como em outros anos, agricultores vendem 70% da safra no Brasil
O brasileiro está aprendendo a consumir mais gengibre. O rizoma, famoso ingrediente do quentão das festas juninas, passou a fazer parte da dieta de pessoas que buscam alimentos saudáveis. Pelo menos é o que indica a mudança no destino da produção dos municípios de Tapiraí e Piedade, região de Sorocaba (SP), que detêm as maiores áreas cultivadas com gengibre no Estado de São Paulo.
A maior parte da produção está ficando no Brasil, em vez de ser exportada, como ocorria há quatro anos. Juntos, Piedade e Tapiraí contam com cerca de 80 produtores e área total de 170 hectares. A produção chega a 3.200 toneladas por ano.
Segundo o engenheiro agrônomo Alberto Shimoda, da Diretoria Municipal de Agricultura de Piedade, a popularização das culinárias japonesa e chinesa no Brasil difundiu o consumo. "O gengibre está entrando em pratos inspirados na culinária oriental, mas também é procurado porque faz bem à saúde." Aliada a um consumo maior, a baixa cotação do dólar frente ao real levou os produtores a darem preferência ao mercado interno. Além disso, lá fora, o produto brasileiro sofre com a concorrência do gengibre chinês.
A colheita segue acelerada em Piedade e o volume que está sendo exportado este ano é de apenas 30%, mas as remessas devem crescer à medida que avançar a colheita em Tapiraí. Em anos anteriores, chegou-se a exportar 70% da produção.
O agricultor Francisco Soares da Silva está entregando a maior parte da safra para hipermercados. Ele mantém a exportação apenas para não perder uma clientela já conquistada. "Para exportar, precisa selecionar um gengibre com mais padrão, mas o valor pago é o mesmo do produto que a gente vende no mercado interno".
Silva é um dos maiores produtores da região. Este ano, ele plantou 23 hectares que devem render uma produção total de 540 toneladas, com a média de 1.950 caixas de 12 quilos, ou 23,9 toneladas, por hectare. Ao preço da semana passada, de R$ 1,50 o quilo para o produtor, a receita anual bruta com a cultura pode chegar a R$ 820 mil na propriedade.
Colheita escalonada. As lavouras, em talhões isolados que não passam de 1 hectare (10 mil metros quadrados), espalham-se pela área de mais de 400 hectares do Sítio São Roque, no bairro da Bateia, na divisa entre Piedade e Tapiraí.
O produtor escalona a colheita para ter produção o ano todo. "O gengibre não é mais que uma raiz e pode ficar sob a terra por até dois anos, sem nenhuma perda", diz o produtor.
Ele explica que a cultura é distribuída em talhões pequenos, separados um do outro por outras culturas, para evitar as doenças causadas por fungos. "Se o fungo pega um talhão, ele se espalha rápido e pode dar perda total, mas a gente consegue salvar os talhões que não foram afetados."
Silva também produz outros tubérculos (inhame, batata-doce, cará e beterraba), possui lavador próprio e a estrutura de empresa conta com dezenas de funcionários. Para lavar o gengibre, ele usa um sistema de redes de tecido mergulhadas em água. Os rizomas ficam limpos e não sofrem lesões na casca.
Parcerias. Para manter a estrutura sempre ocupada, o produtor mantém parcerias com pequenos agricultores da região. O agricultor Benedito Garcia cultiva o gengibre e entrega a produção para Silva, que fornece a semente, adubo e outros insumos. "É uma parceria boa para o pequeno, pois o risco é menor." Garcia conta que a cultura é rústica e só requer a adubação convencional, no solo, mais algumas aplicações de adubo foliar. "A gente não usa inseticida, nem outros produtos químicos." As lavouras não são irrigadas. "É São Pedro quem garante a produção."
O município de Tapiraí ganhou destaque, no passado, como o maior produtor de gengibre do País. Com clima e solo favoráveis, a cidade chegou a ter mais de 300 produtores e quase toda a produção era exportada. Mas a prática de usar como semente o gengibre da própria lavoura e manejos inadequados levaram à propagação de doenças, sobretudo causadas por fungos. A produção declinou de forma vertiginosa e grande parte dos agricultores abandonou a lavoura. Agora, um trabalho da prefeitura e da Secretaria de Agricultura paulista começa a resgatar a tradição. Cerca de 40 produtores retomaram o plantio e vêm obtendo produtividade de até 20 toneladas/hectare. "Estamos buscando melhoria na qualidade da semente, o que é essencial para ter uma boa produção", diz o agrônomo Raul Rozas, da Casa da Agricultura local.
Os produtores que permaneceram na atividade aprenderam a controlar as doenças por meio de técnicas como a rotação de culturas na lavoura e o plantio menos adensado. A incidência já diminuiu e a qualidade melhorou. "Com o cultivo menos adensado, o padrão da raiz ficou melhor, com rizomas mais retos e volumosos", explica Rozas.
"Este ano foi bom, pois teve chuva na medida certa. As raízes estão saindo graúdas e brilhantes", diz o produtor Diogo Matsuda.
Alimento já é reconhecido pela OMS
O agrônomo Alberto Shimoda explica que o gengibre gosta de solos argilo-arenosos, com boa drenagem, e de clima ameno, com umidade relativa do ar entre 50% e 65%. Por essa razão, as culturas se desenvolvem melhor nas encostas, com terrenos bem drenados, e próximos de matas, onde a umidade do ar é mais constante.
Para o mercado externo, os produtores fazem o plantio menos adensado, espaçando mais as plantas entre linhas e no terraço. Com isso, os rizomas ficam maiores e com melhor formação. O principal destino das exportações são EUA, Países Baixos, Reino Unido e Canadá e a região de Sorocaba é a maior produtora no Estado, seguida por Pindamonhangaba, Mogi das Cruzes e Registro. Poucos sabem, mas o município de São Paulo também produz gengibre, em cerca de 25 hectares.
Segundo o Instituto de Economia Agrícola (IEA), em 2004, o Estado produziu 4.400 toneladas de gengibre em 253 hectares. A produção aumentou nos últimos anos, mas São Paulo ainda não recuperou a liderança nacional, perdida para o Espírito Santo, que produziu, em 2009, 10 mil toneladas em 320 hectares.
Reconhecimento. O gengibre (Zinziber officinalis) é originário da Ásia e chegou ao País cerca de um século após o descobrimento, no período colonial. Hoje, é cultivado também na faixa litorânea do Paraná e Santa Catarina. O chá de gengibre é considerado medicinal e usado desde a Antiguidade contra gripes, tosses e dores de garganta.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconheceu a ação da planta sobre o sistema digestivo, tornando-a oficialmente indicada para evitar enjoos e náuseas e na digestão de alimentos gordurosos.
Veículo: O Estado de S.Paulo