Estrangeiros desafiam a supremacia do arroz japonês

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Pressionados pela diminuição da renda, assim como pelo temor da radiação liberada pelo desastre nuclear do ano passado em Fukushima, uma grande região produtora de arroz, um pequeno mas crescente número de japoneses está abandonando a lealdade ao caro arroz de alta qualidade plantado no país e procurando alternativas mais baratas dos Estados Unidos, do Japão, da Austrália e da China.

"Eu não acho que muitas pessoas pensariam em comprar arroz importado no passado, mas isso pode estar mudando agora", disse Kana Saito, 29, uma funcionária de escritório que fazia compras no Seiyu Walmart, a rede americana, em Tóquio. Ela queria comprar arroz plantado na China, mas tinha acabado. "O rótulo 'cultivado no Japão' realmente não tem mais a mesma importância", disse ela.

As importações de arroz sofrem uma tarifa de 778%. Desde 1995, o governo importou anualmente 635 mil toneladas de arroz livres de tarifa, a maior parte para alimentar o gado e para os estoques de emergência.

Algum arroz importado sempre foi usado discretamente por restaurantes baratos, segundo autoridades do setor. Mas para os consumidores que querem comprar arroz importado para cozinhar em casa -ou para grandes redes que abertamente optam pelo arroz importado- é uma grande mudança, elas disseram.

Hoje, a procura pelas alternativas estrangeiras faz os comerciantes e os restaurantes disputarem as cotas que o governo japonês disponibiliza para uso no varejo, que chegaram a cerca de 9 mil toneladas no ano passado, segundo registros oficiais -uma pequena fração das 8 milhões de toneladas de arroz vendidas no Japão.

Em uma pesquisa com 60 companhias de alimentos feita pelo jornal Nikkei em março passado, 70% disseram que estariam interessadas em usar arroz importado se houvesse disponibilidade.

O lobby agrícola japonês, que tem forte poder político, se opõe a uma abertura ao arroz estrangeiro. Ainda assim, a diminuição da lealdade ao produto cultivado no Japão pode ter imensas implicações para um país cujas política, sociedade, economia e até identidade nacional estão entremeadas com o cultivo do arroz.

"Se o Japão abrir o mercado para o arroz estrangeiro, seria uma grande mudança desde o pós-guerra", disse Toshiyuki Kako, um professor emérito da Escola de Ciências Agrícolas da Universidade de Kobe, no oeste do país. "Vai mostrar até onde as atitudes do consumidor mudaram nos últimos anos", disse.

Nos EUA, a Federação do Arroz, que realiza testes de gosto esporádicos em Tóquio, disse que a maioria dos consumidores aqui não consegue diferenciar entre o arroz nacional e o importado.

"Nós simplesmente gostaríamos de ver a demanda ditar para onde vai o arroz americano, e não o governo", disse Robert Cummings, o diretor da federação.

Para os agricultores de Fukushima, o interesse pelo arroz estrangeiro vem no pior momento. No ano passado, os agricultores se preparavam para plantar uma nova variedade de arroz, criada durante 15 anos a partir das duas principais variedades domésticas e chamado de "Ten No Tsubu", ou "Grão do Céu".

Mas em março de 2011, os três reatores nucleares atingidos pelo tsunami inutilizaram cerca de 7.300 hectares de terras agrícolas de Fukushima. Na época da colheita, uma parte do arroz estava contaminada, prejudicando as esperanças de uma grande estreia.

"Este arroz que temos é o melhor que já existiu, mas estou muito preocupado", disse o agricultor Katsuyuki Kuchiki. Sua colheita do novo arroz no ano passado deu negativo no teste para matéria radioativa como césio, e chegou ao mercado -mas por preços muito abaixo do imaginado.

Neste ano, os agricultores da região pulverizaram seus campos com substâncias que absorvem césio e pretendem aumentar em 20 vezes a produção do Grão do Céu. As autoridades vão testar todas as sacas para radiação.

Mas existe uma inquietação generalizada sobre o arroz da região. Uma preocupação mais ampla é a economia deflacionária do Japão, que tornou os consumidores menos ligados às marcas caras. Um estudo feito no ano passado pelo Instituto de Pesquisa Geral de Cooperativas do Japão mostra um salto nas vendas de arroz doméstico de categoria inferior e um declínio nas marcas mais caras.

Também há um distanciamento do arroz, especialmente entre os japoneses mais jovens, enquanto a dieta tradicional de peixe e arroz dá lugar a pão, macarrão e pizza. O consumo de arroz per capita dos japoneses hoje é a metade da quantidade nos anos 1960.

Até recentemente, os consumidores domésticos pareciam aceitar pagar até 5 mil ienes, cerca de US$ 62, por um saco de 10 quilos de Japonica, o arroz de grão curto e pegajoso preferido aqui -quase dez vezes o preço cobrado globalmente pela variedade mais comum, de grão longo.



Veículo: Folha de S.Paulo


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