A queda dos preços do leite aos produtores nacionais - em decorrência do aumento da oferta e da demanda enfraquecida - está preocupando a cadeia produtiva do setor, que no ano passado viveu dias de euforia por conta das cotações em alta.
Em reunião ontem, na Fiesp, em São Paulo, representantes de produtores e de laticínios trataram do que já chamam de "crise" na cadeia do leite.
Jorge Rubez, presidente da Leite Brasil (que reúne os produtores e que convocou o encontro), disse ao Valor que "existe queda no consumo e excedente de produção, o que gerou crise na cadeia". Para Rubez, a solução, diante da retração do consumo não é pagar menos ao produtor. Isso, disse, pode ter como resultado a saída de produtores da atividade e falta de oferta de leite no próximo ano.
De acordo com levantamento do Cepea, da Esalq/USP, em nove Estados, todos registraram quedas de preços no pagamento de agosto (referente ao leite entregue pelos produtores em julho) Segundo o Cepea, o preço médio (bruto) no país caiu 4,66% sobre o mês anterior, para R$ 0,7117 por litro. Em comparação com agosto do ano passado, o recuo, em termos nominais, é de 7%.
Hoje, segundo Rubez, o custo de produção está em cerca de R$ 0,70 por litro em São Paulo, e há laticínios querendo pagar ao produtor menos do que isso pelo leite.
Para evitar que a atual queda nos preços ao produtor se reflita na oferta de leite no futuro, o setor vai solicitar ao governo medidas de apoio. Rubez disse que produtores e indústrias vão elaborar um documento pedindo ao governo ampliação do limite máximo por empresa das linhas para EGF (estoques do governo federal). Hoje cada empresa tem acesso a R$ 10 milhões em EGF, valor considerado baixo.
Na avaliação de Rubez, esse valor precisaria dobrar ou triplicar. Por meio do EGF, as indústrias ganham fôlego para segurar estoques, reduzindo a oferta de leite no mercado. O presidente da Leite Brasil defendeu que a liberação de EGF seja "agilizada" e também crédito para estimular a exportação de lácteos.
A crise que afeta a cadeia do leite tem origem na euforia do último ano, quando preços elevados para a matéria-prima e demanda internacional resultaram num aumento da produção por parte de pecuaristas. O mercado positivo, aliás, também estimulou um forte movimento de consolidação no setor. A Parmalat, que já começa a vender ativos após forte queda das ações de sua controladora Laep na Bovespa, foi uma das que entraram no mercado comprando empresas.
De acordo com Rubez, a queda no consumo de lácteos de uma maneira geral alcança 8%, enquanto a produção cresceu 10% a 15%. Isso significa um excedente de 16% na oferta de leite no país.
Veículo: Valor Econômico