A fabricante de sucos Del Valle não exporta mais seus produtos a partir do Brasil. No País desde 1999, a empresa mexicana, que foi comprada pela Coca-Cola Femsa e a Coca-Cola Company no final de 2006, chegou a exportar do Brasil para 25 países da América Latina, África e Ásia. "Interromper as exportações foi a nossa primeira decisão", informou Alfredo Fernández Espinosa, diretor de relações com os investidores da Coca-Cola Femsa, a maior engarrafadora de Coca-Cola da América Latina.
Segundo Espinosa, a decisão foi tomada porque, com a aquisição, o foco da empresa passou a ser o mercado brasileiro. "Em comparação com o México, temos um market share menor no Brasil, mas o mercado é muito maior. Temos um potencial de crescimento muito grande", afirmou. Para ganhar espaço, a empresa deve apostar em novidades. Entre os novos produtos que podem ganhar o mercado brasileiro estão a linha Valle Fruit, que foi lançada no México há quatro meses, com dois sabores de laranja, um tradicional e o outro mais concentrado.
Antes de ser oficializada a interrupção das exportações a partir do Brasil, a empresa já encontrava dificuldades para realizar os embarques em virtude do câmbio. Quando entrou no Brasil a Del Valle optou por tornar o País seu pólo exportador. O que os executivos da empresa mexicana não esperavam era que o dólar, que na época não raro ultrapassava os R$ 3, ficaria abaixo de R$ 2 nos anos seguintes.
No início do ano passado, quando a Coca-Cola e a Femsa ainda não haviam assumido a Del Valle, a então gerente de exportação da empresa reconheceu que a queda do dólar realmente não estava nos planos da empresa, e uma valorização ainda maior seria determinante para definir os próximos passos da companhia, que perdia em competitividade com os exportadores de sucos prontos de outros países. "Não valia a pena", disse Espinosa.
"O volume não era muito significante", minimizou. Em 2006, a empresa mexicana exportou 8% da produção brasileira, que ficou em 84 milhões de litros naquele ano. Para crescer com sucos no Brasil, Espinosa contou que a empresa pode optar por adaptar algumas das fábricas engarrafadoras de Coca-Cola ou de cerveja para produção dos novos produtos.
Desde que o Conselho de Administração de Defesa Econômica (Cade) aprovou a compra da empresa no Brasil, em junho passado, a Coca-Cola Femsa e a Coca-Cola estão discutindo o que fazer com as duas marcas que as empresas passaram a ter: Del Valle e Minut Maid Mais, que já pertencia a Coca-Cola. Segundo Espinosa, mudanças de posicionamento em uma delas podem ser anunciadas. "São duas marcas muito fortes, precisamos tomar cuidado", disse o executivo.
O que já é certo é que a empresa fará parte de uma associação entre a Coca-Cola Femsa, a Coca-Cola Company e as outras 15 engarrafadoras brasileiras. Deste negócio, a Coca-Cola ficará com 50%; a Coca-Cola Femsa com 15%; e as outras engarrafadoras com o restante. Fará parte dessa empresa também a Leão Júnior, fabricante do Mate Leão, que aguarda aprovação do Cade para ser incorporada a associação. No comando dessa associação que será feita no Brasil estará o mexicano Henrique Lechuga, que já trabalhava na empresa.
Quando comprou a primeira engarrafadora no Brasil, a Pananco, em julho de 2003, a Coca-Cola Femsa encontrou uma situação complicada, segundo Espinosa. O executivo afirmou que as dificuldades iam da situação financeira ruim da empresa - tinha fechado o ano anterior com prejuízo de cerca de US$ 30 milhões - ao complicado sistema tributário brasileiro. "Era uma confusão", disse Espinosa.
Agora, o Brasil virou protagonista. As perdas foram revertidas em lucro de US$ 250 milhões - quando somado os US$ 50 milhões da Remil - engarrafadora mineira que a Coca-Cola Femsa adquiriu da Coca-Cola no final do ano passado - em 2007. O sistema Coca-Cola no Brasil, a soma de todas as 15 engarrafadoras, teve ganhos de US$ 800 milhões em 2007. Espinosa afirmou que não existem negociações em curso, mas contou que o interesse no Brasil passa pelas engarrafadoras que estão próximas de onde a empresa já atua, em São Paulo, Minas e Mato Grosso do Sul.
A Coca-Cola Femsa é uma empresa de capital aberto, com ações na Bolsa do México, da qual a Fomento Mexicano S.A. (Femsa) - que também é fabricante da cerveja Sol, Kaiser, entre outras -, possui 53%, a Coca-Cola Company 31% e o restante das ações é negociado no mercado.
Veículo: Gazeta Mercantil