Pela segunda vez na sua história de 73 anos, alguém de fora da família Schincariol vai comandar a fabricante de bebidas de Itu, vendida à japonesa Kirin há cinco meses. Gino di Domenico, que ocupava a diretoria de operações da empresa, assume em 1º de fevereiro a presidência no lugar de Alexandre Schincariol, neto do fundador.
A única vez que o comando da Schincariol foi ocupado por alguém que não tinha o sobrenome da família foi em fevereiro de 2007, quando Fernando Terni, ex-presidente da Nokia Brasil, trocou a filial brasileira da fabricante de celulares para assumir a cervejaria. Saiu menos de dois anos depois. Foi na gestão de Terni, um engenheiro elétrico, que Domenico, formado em engenharia industrial, foi contratado.
O novo presidente chegou à Schincariol em 2007, para ocupar a diretoria industrial. Menos de cinco anos depois, o executivo de 42 anos é alçado à presidência. Segundo apurou o Valor, Domenico foi escolhido por ter ascendência sobre o time. Tem poder de liderança e perfil agregador, o que contribuiu bastante para a escolha do nome.
Conforme adiantou o Valor na edição de 8 de dezembro, a Kirin procurava um brasileiro para o cargo, dentro da própria Schincariol. Os japoneses não desejavam mudar a cultura da empresa e queriam valorizar profissionais que fossem "prata da casa". A Kirin pretende tratar a Schincariol como um negócio à parte, com a sua própria identidade, não como mais uma filial do grupo.
Domenico tem a missão de trazer de volta a Schincariol para o segundo lugar no ranking das maiores cervejarias do país. Até o momento, ela está ligeiramente atrás da Petrópolis, dona da Itaipava (a Petrópolis tem 10,6% do mercado e a Schincariol, 10,3%) - ambas guardam extensa distância da Ambev, dona de 69% de participação em volume de cervejas com as marcas Skol, Brahma e Antarctica, entre outras.
A perda de participação de mercado, que já dura dois bimestres consecutivos, aconteceu no momento de disputa dos dois grupos familiares em torno do poder na Schincariol: de um lado, os irmãos Alexandre e Adriano, donos da Aleadri, e de outros os seus primos José Augusto, Daniela e Gilberto, irmãos que controlavam a Jadangil.
A Aleadri tinha 50,45% da Schincariol e foi vendida em agosto para a Kirin por R$ 3,95 bilhões. Os primos, donos dos demais 49,55%, não concordaram com a venda e impediram na Justiça os japoneses de assumir a empresa. Mas, depois de ter a liminar cassada, acabaram vendendo a sua parte por R$ 2,35 bilhões em novembro.
Para a Kirin, o mercado nacional de bebidas tem muitas peculiaridades e não valia a pena chamar um executivo japonês para o comando. Era preciso alguém acostumado ao consumidor local de cervejas, que costuma ser fiel a marcas. O perfil que estava sendo procurado pelos japoneses era o de alguém com experiência no mercado de consumo, capaz de obter resultados financeiros. Domenico trabalhou por 11 anos na Unilever, antes de ir para a Schincariol. Sua área sempre foi a de logística e industrial. "Ele tem uma boa relação com o Adriano [Schincariol] e sensibilidade para entender as variações do mercado", diz outra fonte. "Domenico tem um perfil pragmático, vai direto ao ponto". Ou seja, já vem talhado para o gostos dos japoneses.
Veículo: Valor Econômico