Em mais uma mostra do comportamento errático da economia este ano, as vendas no varejo cresceram 1,9% em julho na comparação com o mês anterior, segundo o IBGE, surpreendendo o mercado, que esperava um avanço tímido ou até uma retração no mês. Essa é a maior variação desde janeiro de 2012. Em relação a julho do ano passado, a alta foi de 6%. Os números não incluem veículos e materiais de construção.
"Foi um mês bem atípico em termos de resultado de venda", disse o economista Fabio Bem tes, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Ele atribuiu o desempenho ao comportamento dos preços no período, uma vez que a taxa de inflação medida pelo índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 0,03% em julho, com deflação em alguns segmentos.
Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, os dados comprovam a recuperação do consumo. "Mostra que a queda da inflação está possibilitando que o consumidor tenha mais poder aquisitivo", disse. "O crédito também está melhorando e isso reflete nas vendas a varejo, que foram muito boas."
Para Bentes, no entanto, avanços acima de 1% não devem se repetir nos próximos meses. Mesmo assim, a CNC revisou as previsões para o crescimento nas vendas, de 2,8% para 4,2% em 2013. Mesmo que a aposta seja acertada, será menos do que os 8,4% do ano passado. "Acima de 5% acredito que não é possível neste ano", avaliou.
Com um dos maiores avanços em julho, o setor de móveis e eletrodomésticos já reflete o impacto do programa Minha Casa Melhor, que oferta crédito para famílias mutuárias do Minha Casa, Minha Vida adquirirem até R$ 5 mil em produtos da categoria. Em julho, o setor teve alta de 11% nas vendas ante julho de 2012. "Já começamos a ver repercussão dessa liberação de crédito emjulho", disse a técnica do IBGE Aleciana Gusmão.
Quando são incluídos carros e materiais de construção na pesquisa - o que o IBGE chama de varejo ampliado -, o resultado muda: a expansão fica em 0,6% ante junho e em 3,7% na comparação com julho de 2012. Esse resultado é puxado para b uxo pelos veículos, que tive-11 n queda de 3,5% ante junho e de 1,8% frente a julho de 2012.
"O comércio automobilístico está na contramão da recuperação, ern função da recomposição das alíquotas do IPI", disse Bentes. O varejo ainda não contabiliza efeitos da desvalorização do real ou da alta de juros, segundo o IBGE.
Confiança. Indicadores de confiança do comércio e do consumidor apontavam para um recuo no mês de julho. "Ninguém esperava que em um cenário com queda de confiança tão grande fôssemos ter um mês tão bom de vendas", comentou o economista-chefe do banco ABC Brasil, Luís Otávio Leal.
Para o economista Aloisio Campeio, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlío Vargas (Ibre/FGV), houve um excesso de pessimismo emjulho. "Houve um efeito de choque na confiança, um impacto meramente de sentimento em relação às manifestações (de junho)", observou.
Naquele mês, o índice de Confiança do Consumidor (ICC) da FGV recuou 4,1% ante junho. Jáem agosto, a recuperação foi de 4,4% em relação ao mês anterior, embora os níveis ainda sejam baixos. / Colaboraram Renata Veríssimo e Beatriz Bulla
Previsão
"Ninguém esperava que em um cenário com queda de confiança tão grande fôssemos ter um mês tão bom de vendas."
Veículo: O Estado de S. Paulo