Sete entre dez brasileiros das classes de maior renda fazem compras de produtos pelo sistema porta a porta, um canal de venda identificado no passado como ligado principalmente às camadas sociais mais baixas. Na nova classe média, esse número é menor - cai para quatro entre dez consumidores. A presença dos canais de venda por camadas sociais é alvo de pesquisa que deve ser apresentada hoje no 14º Forum de Varejo da América Latina, realizado pela GS&MD Gouvêa & Souza, em São Paulo.
No comércio eletrônico, apesar dos ganhos de renda do brasileiro que levou à popularização da compra online no país, o estudo mostra que apenas 10% da classe C2 usa a web para compras. Na classe C1, a taxa é de 25%. Ao se verificar essa taxa de penetração na classe B2 (exatamente acima da C1), o número vai a 39%.
O estudo utiliza dados da Abep, a associação das empresas de pesquisa, para classificar os consumidores conforme a renda. A classe A tem renda familiar média de R$ 14.366; a B1, de R$ 8.099; a C1, R$ 1.391; e a C2, R$ 933. Foram ouvidas 407 pessoas em São Paulo.
Na avaliação da GS&MD, tem ocorrido um aumento da participação da internet entre os canais utilizados pela classe C, mas ainda há obstáculos que impedem um avanço mais rápido. "Esse é um consumidor que gosta de ir à loja porque, para ele, certas compras são um fato importante, um sinal de melhoria de status. Então, às vezes ele prefere ir ao ponto de venda do que comprar pela internet", diz Luiz Goes, sócio-sênior da GS&MD.
Além disso, ainda há o fator ligado à necessidade da mercadoria. Quando as camadas de menor renda adquirem um produto mais caro, em certos casos, o cliente precisa da mercadoria com urgência. "Muitas vezes, esse cliente compra uma geladeira ou fogão novos porque os antigos itens quebraram. Ele não pode ficar esperando dias pela mercadoria adquirida na web, ou correr o risco de receber com atraso", diz Antonio Coriolano, sócio da RetailConsulting.
É fato, no entanto, que a nova classe média registra a maior taxa de expansão em termos de acessos a sites de compra na internet hoje, até porque as camadas de maior renda já registram taxas muito altas. Em 2010, nove em cada 10 computadores vendidos no Brasil foram adquiridos pela classe C, revela pesquisa da agência Razorfish, e 42% dos internautas brasileiros pertencem a essa classe social (em 2004 representavam 29%).
Ainda segundo o estudo da GS&MD, a venda direta (por catálogo) realizada por empresas como Natura e Avon, tem mais consumidores nas classes mais altas. Nas camadas sociais A e B1, os índices de penetração são de 66% e 56%, respectivamente. Na C1 e C2, atingem 52% e 39%. "Isso desmistifica a ideia de que só os mais pobres compram no porta a porta", diz Goes. "Essas grandes empresas de venda direta têm criado novas marcas de produtos premium e alguns itens registram preços mais salgados", conta Goes.
Veículo: Valor Econômico