Dados divulgados ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram claramente a sinuca enfrentada pelo setor brasileiro de manufatura: por um lado é cada vez maior a dificuldade de vender produtos nacionais lá fora e, por outro, a participação dos importados no consumo doméstico não para de subir. No primeiro trimestre do ano, os bens fabricados no exterior abocanharam o recorde de 22% das vendas no País. Ao mesmo tempo, a participação das exportações no faturamento industrial, que vinha subindo desde abril do ano passado, inverteu a tendência e caiu no primeiro trimestre. Para cada R$ 100 em vendas da indústria, apenas R$ 20,4 vêm de fora, ante R$ 20,6 no fim do ano passado.
Na avaliação do economista Marcelo Azevedo, da CNI, os dados ilustram as dificuldades de competitividade enfrentadas pelo setor industrial do País desde a eclosão da crise financeira internacional, em 2008. Os quase 20 pacotes baixados pelo governo, a administração do câmbio na casa dos R$ 2 e a redução da taxa de juros não seriam suficientes para alterar fundamentalmente o cenário, em sua avaliação. Falta, ainda, desatar os nós da infraestrutura, que aumentam os custos, e reduzir a burocracia e a carga tributária.
"Os números mostram o que vem acontecendo até agora e o que deve se tornar tendência", afirmou Azevedo. "Precisamos de algo claro, permanente e duradouro."
investimentos. Diante das incertezas, a indústria tende a aguardar antes de investir, segundo Azevedo. O tema está na agenda prioritária do Palácio do Planalto, que tenta deslanchar os investimentos privados desde o primeiro ano de gestão da presidente Dilma Rousseff.
Segundo a CNI, a fraca demanda no mercado externo, a valorização do câmbio e a queda dos preços de produtos exportados são as principais causas da redução das vendas ao exterior no faturamento da indústria. Para o economista da entidade, os importados ganham espaço na preferência do consumidor brasileiro por causa dos preços mais baixos.
Em agosto de 2011, o governo federal lançou o Plano Brasil Maior, uma política de benefícios para o setor de manufatura. De lá pra cá, medidas pontuais e com prazo limitado, no entanto, têm dificultado a decisão de investimento de empresários. Há queixas de vários setores contra a escolha, pelo governo, de apenas algumas indústrias para conceder benefícios especiais, como é o caso das montadoras e fabricantes de produtos da linha branca, que tiveram redução do IPI.
Importados, A avaliação da entidade é que, se a economia brasileira voltar a crescer a taxas mais elevadas, poderá haver maior aceleração no consumo de produtos importados. No primeiro trimestre, a maior fatia de bens de fora nas compras de brasileiros ocorreu no setor de informática, eletrônicos e óticos (56,7%), seguido pôr máquinas e equipamentos (39,8%).
A participação de bens fabricados no exterior no consumo doméstico atingiu o mínimo de 16,3% no segundo trimestre de 2010 e vem subindo. Procurado, o Ministério da Fazenda não se pronunciou sobre os dados. A reportagem não conseguiu contatar o setor do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior que poderia comentar os dados.
Veículo: O Estado de S.Paulo