Walmart junta as pontas
A rede varejista nunca conseguiu reproduzir no Brasil a política de preços baixos que a consagrou nos EUA. Agora, com sete anos de atraso, resolveu fazer o óbvio: integrar suas lojas.
Desde que chegou ao Brasil, em 1995, a varejista americana Walmart nunca conseguiu reproduzir com a mesma eficiência a política de preços baixos que fez da empresa criada pelo legendário Sam Walton a maior rede de supermercados do mundo. Podia parecer óbvio, mas só há menos de dois anos, por exemplo, a subsidiária local começou a praticar a estratégia do “preço baixo todo dia”, sem precisar lançar mão de ofertas pontuais, nos seus mais de 500 pontos de venda. Tão evidente quanto seria colocar todas as lojas debaixo da mesma plataforma tecnológica de vendas. Mas, sete anos depois de sua última aquisição – o Walmart comprou o Bom Preço, em 2004, e o Sonae, em 2005 –, a companhia de Bentonville, no Estado do Arkansas, começa, enfim, esse trabalho de padronizar e integrar os sistemas de vendas de todas as suas loja.
Marcos Samaha, presidente do Walmart: "Era o que faltava para entrarmos
em um novo patamar de crescimento"
“Foi como assistir à chegada do homem à Lua”, afirma Marcos Samaha, presidente do Walmart, no País, que acompanhou , direto de Curitiba, a primeira troca de um sistema antigo para o novo.“Trate-se de pequeno passo para o homem, mas que representou um salto enorme para a empresa.” A declaração de Samaha pode parecer exagerada – e é. Mas o tema chegou a ser tratado, inclusive, pelo presidente das operações internacionais da companhia, o americano Doug McMillon, em apresentação feita a investidores, no mês passado. Na ocasião, ele afirmou que o objetivo de reunir todas as lojas em torno de uma única plataforma de vendas é acabar com o que chamou de “processos imaturos”.
Ele definiu a situação da operação brasileira como muito complexa. “O ambiente tributário é desafiador e as regras mudam constantemente”, afirmou McMillon. “Nossa operação não era simples o suficiente para ser executada com eficiência.” Na prática, com a integração das lojas, McMillon e Samaha esperam que a cantilena de preço baixo todo dia passe a ser regra nos supermercados da companhia. O novo sistema, desenvolvido pela própria empresa nos Estados Unidos e adaptado à realidade brasileira, vai unificar os processos de compra de mercadorias, controle de estoques e reposição de produtos nas gôndolas. De sua sala no escritório central da rede varejista, em Barueri, na Grande São Paulo, Samaha poderá acompanhar tudo o que acontece nas lojas do Walmart.
Além dele, os próprios fornecedores poderão saber em tempo real o que está acontecendo com seus produtos nas lojas. Eles também poderão cuidar sozinhos do abastecimento dos supermercados, o que promete reduzir os custos de logística e aprimorar o mix de produtos vendidos. Com isso, o Walmart espera conseguir negociar preços menores com os seus fornecedores. “As grandes redes varejistas já possuem softwares sofisticados, mas essa possibilidade de os fornecedores terem acesso direto aos dados representa uma grande vantagem competitiva”, diz Mário Rodrigues, diretor da consultoria IBVendas, de São Paulo.
Com esse argumento, o Walmart espera convencer seus fornecedores a aderir à estratégia do “preço baixo todo dia”. Desde que foi lançado, dos sete mil fornecedores da subsidiária brasileira, apenas 300 abraçaram o modelo. “Era o que faltava para entrarmos em um novo patamar de crescimento”, diz Samaha. Com um faturamento de R$ 23,5 bilhões em 2011, o Walmart é o terceiro colocado no ranking de varejo no País, atrás do Pão de Açúcar e do Carrefour. Apesar do entusiasmo do seu presidente, há um longo trajeto a ser percorrido. Até agora, só quatro lojas dispõem do novo sistema. A previsão de conclusão desse projeto é só em 2014. Como efeito colateral, a companhia vai reduzir o ritmo de abertura de lojas, que deve cair de 50 por ano para menos de 30.
Veículo: Revista Isto É Dinheiro