Alguns supermercados começam a trocar embalagens recicláveis por cupons de desconto. Vale a pena?
Uma vez por semana, durante três anos, o paulistano Thiago Von Gal cumpriu o mesmo trajeto. Levava um punhado de embalagens recicláveis para a máquina de coleta seletiva, no supermercado ao lado de casa, em Berlim, na Alemanha. Ganhava de u 10 a u 15 na troca. “Para alguém que estava passando dificuldades, como eu, aquele dinheiro fazia diferença”, diz. Quando voltou ao Brasil, resolveu trazer as máquinas junto. Em março de 2009, Von Gal, de 31 anos, chamou o amigo Felipe Kurc, de 32, para ser sócio da Susten Trading. Os dois importam as máquinas de uma fabricante norueguesa, a Tomra. Na Alemanha, há 30 mil máquinas da marca.
Elas se parecem com aquelas que vendem refrigerante. Em vez de expelir Coca-Cola em troca de dinheiro, recolhem materiais para ser reciclados e emitem cupons de desconto. As máquinas aceitam embalagens com formato cilíndrico (como garrafas e latinhas) de plástico, vidro ou alumínio. Quem contrata o serviço são empresas interessadas em reciclar parte do lixo que produzem. Desde o ano passado, sete máquinas estão em supermercados de Jundiaí, em São Paulo. Faz parte do projeto-piloto, apoiado pela Schincariol. Quem leva o lixo ganha uma garrafa de água mineral da marca na compra de três. Agora, Von Gal e Kurc se preparam para trazer as máquinas para a cidade de São Paulo.
A dupla da Susten Trading negocia com fabricantes de bebidas. Cada embalagem pode
render R$ 0,03 de desconto na compra de produtos da empresa patrocinadora da máquina. Além de marketing, isso deverá virar obrigação legal para as empresas. Segundo a nova lei de resíduos sólidos, elas deverão criar mecanismos para recolher parte do lixo que seus produtos geram.
Hoje, o consumidor que quiser cuidar do lixo que produz tem três alternativas: a coleta seletiva da prefeitura (disponível em poucos lugares), os pontos de coleta privados e os catadores de lixo. Soluções como a criada por Von Gal e Kurc permitem que o consumidor ajude na reciclagem. A participação do consumidor tem duas vantagens. A primeira é servir de alternativa para o modelo de coleta atual, baseado nos catadores. Estima-se que 800 mil pessoas trabalhem nessa atividade. Mas ela deixará de ser atraente se as condições sociais do país continuarem melhorando. À medida que a economia no Brasil avança, a tendência é que esses trabalhadores sejam integrados à reciclagem de outras formas ou encontrem oportunidades melhores de trabalho em outras áreas. “O catador de lixo da forma precária e desumana como é hoje vai acabar”, diz Carlos Silva Filho, diretor executivo da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).
A segunda vantagem é que, para o consumidor, vale a pena trocar por bônus mesmo embalagens de plástico leves, como garrafas PET, que nem sempre compensam para os catadores. “É comum o catador largar esse material na calçada, o que cria outro problema para a limpeza pública”, diz Silva Filho. “Eles dão preferência para o que tem maior valor por quilo.” Isso explica por que 99% das latinhas de alumínio são recicladas no Brasil, mas só 7% do lixo ganhe nova utilidade. Até os anos 1990, era comum levar os cascos de cerveja e refrigerante para as lojas. Pelo visto, o casco retornável retornou.
Veículo: Revista Época