Ministro brasileiro da Fazenda recomenda crescimento menor para que o equilíbrio macroeconômico seja mantido, sem provocar alta da inflação
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, defendeu patamar mais "prudente" de expansão da economia no ano que vem. Depois de um 2010 de forte recuperação, em que economistas estimam crescimento ao redor de 7%, ele recomenda pisar no freio para que o País não cresça mais que 5,5%.
Um dos primeiros países a se recuperarem do declínio provocado pela crise global, o Brasil vive às voltas com sinais de superaquecimento e temores de aceleração da inflação. O Banco Central (BC) já elevou a taxa básica de juros brasileira duas vezes este ano, para 10,25% ao ano, e o mercado prevê novas altas até dezembro, que poderiam colocar a taxa Selic em 12%, segundo o relatório Focus (pesquisa semanal feita pelo Banco Central).
"Depois de um ano forte, o seguinte tem de dar uma ajustada, mas acho que 5,5% é uma taxa possível (de se alcançar sem provocar inflação). Em 2012, já dá para voltar para 6%, 6,5%", disse o ministro à agência de notícias Reuters na noite de domingo, apostando na melhora da capacidade produtiva da indústria doméstica. "Eu prefiro crescer um pouco menos e manter o equilíbrio macroeconômico... Não é muito prudente crescer mais que isso."
Mantega concedeu a entrevista em Toronto com aparatos de chefe de Estado. Substituto oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Cúpula do G-20, discursou no fim de semana ao lado de líderes como o presidente americano, Barack Obama, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy.
No Canadá, vocalizou a bandeira dos países emergentes e dos Estados Unidos de que, para o bem da economia global, é imperativo que o mundo cresça. A tese encontra resistência na Europa, em ensaio geral para um aperto de suas contas públicas, o que deve representar retirada dos estímulos à atividade econômica.
Quarteto emergente. O fato é que as economias avançadas dependem cada vez mais do quarteto emergente Brasil, Rússia, Índia e China. Sob a sigla Bric, essas nações vêm puxando a recuperação econômica global. Os países europeus mais fortes têm de estimular sua demanda doméstica e contribuir para a retomada do comércio internacional, segundo Mantega, para não deixar o trabalho nas mãos dos países emergentes.
"Os países avançados que são exportadores não devem fazer um ajuste fiscal muito severo, porque não vão estimular o consumo doméstico, e nós não vamos conseguir exportar. Então isso joga nas costas dos emergentes a responsabilidade pela retomada", disse o ministro no sábado.
Para o ministro, é prematuro eliminar estímulos e seguir na linha do aperto severo, sob o risco de comprometer parte central da engrenagem econômica mundial. Para ele, é possível encontrar equilíbrio entre crescimento e ajuste fiscal, desde que se tenha metas razoáveis de redução de gastos aplicadas gradualmente.
"Não estou dizendo que não se deva retirar. No caso do Brasil, já retiramos quase todos os estímulos porque a economia já está apresentando um crescimento sólido, acima de 6%, mas outras economias estão longe de apresentar essa taxa de crescimento", afirmou.
Veículo: O Estado de S.Paulo