Com o crescimento das economias emergentes e com a estabilização do Produto Interno Bruto (PIB) de países desenvolvidos, a demanda por alimentos deverá crescer nos próximos anos. Essa procura deve ser puxada principalmente pela China. Segundo consultor da Tendências Consultoria Integrada e chefe do Centro de Crescimento Econômico do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre-FGV), Samuel Pessoa, o crescimento econômico chinês deve ser de em média 10% nos próximos 10 anos. Neste contexto, o Brasil, que é um dos maiores exportadores de commodities, pode ser beneficiado, já que a China é seu maior parceiro comercial. Por outro lado, especialistas alertam para o fato de ser possível que o País tenha de conviver com pressão inflacionária "importada" pela alta dos preços das commodities, conforme enfrentamos atualmente.
De acordo com o último dados divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice oficial que mede a inflação brasileira, o Índice nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), fechou março com um resultado acumulado de 12 meses de 6,3%, a maior taxa desde novembro de 2008 (6,39%).
Os alimentos, que haviam iniciado o ano com alta de 1,16% e recuado para 0,23% em fevereiro, voltaram a subir de forma significativa, para 0,75%, a ser a maior variação, junto com a de transportes (1,56%), no mês passado.
Explicação
"A integração do Brasil com as demais economias do mundo vai trazer impactos aos nossos produtos. Principalmente, por causa do crescimento da China, as exportações brasileiras, no curto e médio prazo, vão pressionar manutenção ou elevações dos preços das nossas commodities", analisa Alexandre Uehara, coordenador do curso de relações internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco. O professor acrescenta que mesmo com a expectativa de desaceleração do país asiático para controlar a inflação local, a demanda chinesa não deve ser reduzida.
Além da China, a Índia também possui uma grande densidade demográfica e expressivos crescimentos econômicos. No ano passado, aquele país cresceu 9,6% comparado ao PIB de 2009, o que possibilitou o aumento da renda da população e, assim, maior demanda por alimentos. Somado a esses fatores, esses países também se tornaram mais urbanos, de modo que as aquisições passaram a ser feitas em supermercados e não por produção própria. Desta forma, a oferta tem que atender a larga escala em curto espaço do tempo e isso gera a inflação já observada hoje.
Adicionalmente ao crescimento das economias emergentes, as mudanças climáticas, ao provocarem enchentes e secas, muito comuns no Brasil, afetam produção dos alimentos tanto para atender tanto a demanda interna quanto para a externa.
Exemplo de que a China está demandando alimentos produzidos no Brasil é a abertura do país asiático para a carne suína brasileira. No começo da semana passada, o ministro da Administração Geral de Qualidade, Inspeção e Quarentena da China, Zhi Shuping, disse ao ministro da Agricultura do Brasil, Wagner Rossi, que três frigoríficos nacionais estavam autorizados a exportar carne de porco para a China. Durante a negociação entre os países, o governo chinês já havia anunciado que pretende importar 200 mil toneladas da carne suína produzida no Brasil pelos próximos cinco anos.
Convivência
José Márcio Camargo, economista da Opus Gestão de Recursos, afirma que com essa parceria com a China, as exportações brasileiras vão estar concentradas nas commodities e "não tem o menor problema nisso". "O Brasil tem que aproveitar que a China vai continuar a demandar commodities do Brasil pelo menos nos próximos dez anos para investir em capital físico e humano", aconselha o especialista, ao se referir à necessidade desses investimentos para manter o crescimento econômico brasileiro.
O coordenador da Rio Branco indica que a saída para o Brasil conviver com inflação pressionada pelos preços das commodities é investir em tecnologia no agronegócios e aumentar a área de produção de alimentos. "Na minha opinião, este investimento já está sendo feito", observa.
Veículo: DCI