A deterioração das contas externas da Argentina liquidou a experiência do congelamento informal de preços que vigorava havia três meses para os supermercados e as redes de varejo de eletrodomésticos no país. Na última semana, o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, autorizou diversos fabricantes a aumentarem preços, e o repasse ao consumidor será permitido. Simultaneamente, voltou a bloquear as importações.
"As autorizações estão demorando o triplo do tempo e já há falta de derivados de leite, produtos óticos e mesmo bens de capital para a indústria florestal", afirmou o diretor do Centro de Importadores (CIRA), Miguel Ponce. As importações argentinas dependem de autorizações do governo emitidas caso a caso, desde a criação em fevereiro do ano passado de um documento em que o importador precisava descrever a operação, sem a qual não há liberação de divisas.
Desde setembro o governo argentino vinha agilizando as concessões das autorizações, após ser pressionado pelos parceiros comerciais. Em fevereiro, preocupado com a aceleração inflacionária, o governo impôs um congelamento informal ao varejo. Para os empresários que mantivessem os preços congelados seria aberta a janela de importação de produtos até então pouco frequentes no mercado argentino.
As perdas de margem em produtos de consumo massivo foram portanto compensadas com o aumento da oferta de importados, como cervejas especiais, roupas e eletrodomésticos. A manobra fez com que o congelamento fosse respeitado pelas grandes redes. Até mesmo medições privadas de inflação não registraram variações de preço relevantes nos últimos três meses. Mas não houve congelamento nos mercados de pequeno porte, nos serviços e nos insumos.
"As importações cresceram 5% ao mês em média no começo deste ano. Foi a primeira vez em muito tempo em que as importações foram usadas para o controle de preços. O problema é que o déficit energético ultrapassou as expectativas", comentou o economista Marcelo Elizondo, da consultoria argentina DNI, especializada em comércio exterior.
"Até o ano passado, as importações de energia eram cobertas pelo superávit comercial. Mas este ano vão superá-lo", comentou Ponce. Em 2012, a Argentina teve um superávit da ordem de US$ 12,7 bilhões e importações do setor energético de US$ 9,3 bilhões.
No primeiro trimestre, somente as importações de combustíveis e lubrificantes cresceram 57% e passaram de US$ 1,3 bilhão para US$ 2 bilhões. O superávit comercial no período caiu de US$ 2,5 bilhões para US$ 1,3 bilhão.
"O novo fechamento das exportações e o fim do congelamento vão impulsionar a inflação real na Argentina. Como a taxa de investimento não aumentou, a capacidade da indústria de absorver um aumento da demanda é limitada", previu Elizondo.
O maior afetado pela volta das restrições a importações na Argentina deverá ser o Brasil. As exportações brasileiras tiveram um baque de 18% ao longo do ano passado, mas neste primeiro quadrimestre, com o afrouxamento das restrições, a velocidade da queda havia diminuído. As vendas do Brasil para a Argentina recuaram 2% no primeiro quadrimestre deste ano em comparação com 2012.
Nenhum outro país ou bloco é tão afetado pelas normas argentinas. A razão principal é que setores industriais do Brasil e da Argentina competem diretamente. Desta forma, é mais fácil para a Argentina substituir as importações provenientes do Brasil.
Como é de praxe na secretaria de Comércio, as autorizações para aumentos de preços foram dadas a determinadas empresas, e não a segmentos do consumo. Deste modo, apenas os produtos da linha Coca-Cola, por exemplo, já receberam autorização para aumentos em maio, enquanto ainda não há reajustes anunciados para a linha Pepsi. Há outros casos similares nos setores de creme dental, pastifício, café, chás e sopas, embutidos e queijos e vinho.
Veículo: Valor Econômico