Os setores de madeira, couro e calçados, petróleo e combustíveis e máquinas e equipamentos terão a maior perda na produção por causa do impacto direto da retração das exportações, com a crise mundial. Ao lançar, ontem, seu "Radar - Produção, Tecnologia e Comércio Exterior", o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apresentou estimativas do impacto direto da queda de exportações sobre a produção industrial brasileira: em média, a retração no comércio externo deve provocar diretamente uma queda em torno de 4,5% na produção. Nos setores mais afetados, a queda quase alcança ou até ultrapassa 10%
"Estamos levando em conta o impacto direto na produção, que pode estar um pouco subestimado", alertou a coordenadora de Política Industrial do Ipea, Fernanda de Negri. "Se levamos em conta os encadeamentos da indústria, o impacto pode ser maior", comentou, lembrando o exemplo da indústria automobilística, da qual dependem vários outros setores industriais, como o de couro, usado nos estofamentos dos veículos.
De Negri notou, porém, que a ligeira recuperação sentida por alguns setores industriais, inclusive o automobilístico, com medidas lançadas pelo governo, podem contribuir para reduzir o impacto da queda das exportações. Como afirmou o diretor de Estudos Setoriais do Ipea, Márcio Wohlers, o levantamento, ao apontar onde estão os maiores estragos feitos pela redução do mercado externo, deverá servir de guia para que o governo identifique o alcance e dimensão das medidas de estímulo a tomar para compensar as perdas no mercado interno.
"Essas medidas terão de provocar, no mínimo, um aumento de 4,4% na demanda para que a produção industrial brasileira se mantenha nos níveis de 2008", comparou Wohlers, de forma simplificada. O efeito da retração é desigual, e o impacto depende do percentual da produção destinado ao mercado externo. Em alguns setores, a queda de exportações no primeiro trimestre foi dramática, como no caso da indústria de veículos (51%), a de madeira (48%), a de petróleo e derivados (41%) e a de couro e calçados (40%). Em outros, apesar de a queda não ser tão grande, o peso da exportações na produção faz com que o impacto seja maior, proporcionalmente, como é o caso de "outros equipamentos de transporte" (principalmente aviões).
O estudo do Ipea, segundo seus autores, é uma tentativa de medir os efeitos da crise com os dados disponíveis. Sem dados atualizados da chamada "matriz insumo-produto", que identifica o peso de cada setor no Produto Interno Bruto, e ainda sem informações sobre a percentagem da produção destinada à exportação em 2008, os economistas do Ipea foram obrigados a fazer aproximações, estimando, por exemplo, o coeficiente de exportações de cada setor no ano passado com base nos dados do IBGE sobre o crescimento da indústria. A ausência da matriz insumo-produto atualizada impede o cálculo do impacto indireto da queda das exportações, sobre setores que vendem no mercado interno.
O setor de máquinas e equipamentos para a indústria é um dos mais prejudicados, lembra o Ipea. Indústrias como a de automóveis e a de couro e calçados podem buscar compensações no mercado interno, mas a retração dos investimentos no Brasil reduz também as encomendas às fábricas de máquinas e equipamentos. O estudo do Ipea mostra que se deve à queda de vendas no mercado interno a retração de mais de 10%, no último trimestre de 2008, de um dos principais indicadores de investimentos, a formação bruta de capital fixo (FBCF, que aponta os gastos em construção e na compra de máquinas e equipamentos, sendo um sinal de investimento).
Baseados nos dados sobre FBCF e na retração das consultas sobre empréstimos ao BNDES, também em queda desde outubro, o Ipea conclui que "é certo" prever uma queda na formação bruta de capital fixo em 2009. Como a redução nas taxas de juros só fará efeito em 2010, só outras medidas para manter o nível interno de atividade e consumo poderão evitar uma queda maior, diz o Radar.
Veículo: Valor Econômico