Os dois check outs do minimercado Granja, localizado na zona sul de São Paulo, contabilizaram alta de 10% no lucro mensal, desde que a proprietária Cristiane Takagui resolveu, em julho, reformar o estabelecimento e associá-lo à rede Supervizinho, que congrega outras onze lojas de bairro.
"Sou a mais nova associada", contou Cristiane, "entrei porque minha empresa é pequena, com catorze funcionários, e eu tinha dificuldades de conseguir certos produtos, principalmente junto aos grandes fornecedores". Os lançamentos e mercadorias presentes na mídia eram os mais difíceis de se obter, segundo ela.
Contudo, hoje, o Granja tem acesso a esses produtos e ainda participa de campanhas institucionais, promovidas por fabricantes, além de ter direito a duas remessas de folhetos promocionais (tablóides) por mês, tudo pago pela indústria que antes não se relacionava com a loja.
"Agora tenho acesso às novidades, o cliente me vê de forma profissional - não mais como uma quitanda -, tenho tablóides e preços agressivos", afirmou Cristiane. E ela garante: não aumentou nem um por cento de seu custo operacional, exceto pelo pagamento da contribuição associativa, no valor de R$ 2.000.
Formada por estabelecimentos como o Granja, a rede Supervizinho reúne doze associados, 65 check outs e 350 funcionários. A associação faz parte de um modelo de negócios cujo mecanismo é fácil de entender: pequenas empresas se juntam, compõem pedidos volumosos e assim obtêm poder de barganha perante aos grandes fornecedores .
"Individualmente, a loja não tem cacife para conversar com a indústria e conseguir benefícios", afirmou o presidente da Supervizinho, Jorge Nagamine. "Em grupo, ela ganha uma atratividade que se aproxima do grande varejo". No caso da rede em questão, a soma das partes resulta numa renda mensal de R$ 85 milhões.
A Supervizinho faz parte de uma lista de 18 associações paulistas integradas por 296 lojas, que somam 1.746 check outs. A relação pertence ao Comitê de Centrais de Negócios da Associação Paulista de Supermercados (Apas), do qual a presidente, Lúcia Morita, também é uma pequena varejista que usufrui dos resultados do trabalho conjunto.
"Esse é um movimento que tende a crescer. A indústria, em vez de distribuir direto para o varejo, está optando por terceirizar cada vez mais distribuidores intermediários", analisou Lúcia, cuja loja Portal, na zona norte de São Paulo, teve aumento de 15% no faturamento anual. "Teve gente que cresceu de 15% a 20%", disse a empreendedora.
A média de crescimento no balanço para aqueles estabelecimentos que se associaram a alguma das redes paulistas é de 10%, de acordo com a líder do Comitê de Centrais de Negócios da Apas. "Cada rede trabalha independentemente, mas nós promovemos reuniões e fomentamos as negociações", explicou Lúcia.
O azeite Gallo, da Cargill, e o café Pilão, da distribuidora Sara Lee, são exemplos de mercadorias com os quais a loja passou a trabalhar, tendo recebido cerca de 10% de desconto, após ter entrado há oito anos para a rede Supervizinho. "Quando esses produtos vão para o tablóide, ficam ainda mais baratos", afirmou Lúcia.
Sobrevivêcia
Para especialistas em varejo consultados pelo DCI, o associativismo é uma das armas de que dispõem os pequenos lojistas contra a concentração do setor supermercadista no Brasil - atualmente em 49%, segundo cálculos oficiais, mas que tende a se intensificar, vide recorrentes ameaças de fusões e aquisições de grandes redes em âmbito nacional.
"Para os pequenos comerciantes se manterem vivos, eles precisam fazer compras e negociações em grupo, pois isso reduz preços logísticos, dando a eles chances de competir com os grandes", enfatizou o presidente da Cooperativa de Consumo (Coop), Antônio José Monte.
Segundo a professora Flávia Guisi, do Programa de Administração do Varejo (Provar), "na negociação com fornecedores, dificilmente as redes pequenas conseguem chegar num patamar de preços como o do Carrefour, mas os descontos obtidos mantêm as lojas firmes no mercado".
Flávia, que já defendeu uma tese sobre o tema, disse que na Europa as associações têm um perfil diferente. "É difícil encontrar o modelo brasileiro no mercado exterior, que tende à franquia. No Brasil, ainda há muito cara que está quase quebrando e só daí vai atrás do associativismo. Isso não é solução para problema de gestão!", destacou a especialista.
Ainda assim, o modelo se espalha pelo Brasil, de acordo com o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios do Estado de São Paulo (Sincovaga), Álvaro Furtado. "Isso está acontecendo em todas as regiões do Brasil: supermercados se unindo em associações (formais ou informais) para negociar em escala com os fornecedores".
Veículo: DCI